OS TRÊS IRMÃOS
Hoje vou contar a história de meu avô: eram três irmãos : João Francisco de Aguiar (meu avô), José e Júlio.
Os irmãos Aguiar, nasceram em Campos, estado do Rio de Janeiro. Eram descendentes de um dos quatro irmãos que chegaram de Guimarães, Portugal: João, Manoel, Ana e Domingos Correia Aguiar ( meu bisavô). O coronel João Francisco, e dona Eugenia Maria de Aguiar (minha avó) tiveram 14 filhos e 71 netos!
João Francisco, ativo abolicionista e republicano ao tempo do império. Filho de Domingos, compartilhou a perda da mãe (minha bisavó) aos quinze anos de idade e a falência dos negócios após um golpe. A família Aguiar perdeu tudo!
João tinha 20 anos. Estudou na universidade politécnica ,e se formou Engenheiro. Voltou para Campos a pedido de seu pai, que queria o talento do filho para ajudar na recuperação dos negócios. Mas mesmo com sua chegada, o golpe havia corrompido todo o trabalho da família. Neste cenário , Francisco, seu irmão, alista-se no exército e José foge para São Paulo. Porém, João (meu avô) fica em Campos apoiando nosso pai.
No entanto, foi o filho mais velho que mais deu problemas: João passou a se envolver com os primeiros republicanos de Campos, apoiando revoltas , como a Inconfidência Mineira. Em um jornal principal de Campos, uma crítica ao governo português e sua corte e a exaltação a república e a abolição da escravatura. E como autor, João Aguiar, perseguido pela policia imperial.
A partir de então, João foi obrigado a trocar Campos por uma vila de pescadores, localizada em Niterói, chamada Jurujuba. Depois de alguns meses, fugiu para um lugar no Rio de janeiro, que não se passava de um grande areal, longe de tudo e pouco habitado: Copacabana.
João viveu ali por um período de um ano, até ser encontrado pelo também desiludido, irmão José.
José Aguiar foi um escritor e aventureiro famoso pelo seu caráter boêmio, cortejador de mulheres e de amante das noites! Mas mesmo com essas características, José foi um grande incentivador da cultura, projetando monumentos para a cidade do Rio de Janeiro, como o Palácio de Bourbon e o Arco da Liberdade, e para a cidade de Três Irmãos, como o solar dos colonos e o obelisco de ouro. Ele nasceu no primeiro dia de carnaval, o que o povo trirmarnense considerava o motivo da sua fama libertina.
Júlio Francisco Aguiar era o caçula da família. Aos quinze anos seu pai Domingos se empolga com os lucros e manda o filho para o Rio de Janeiro , onde ficou sob a tutela do padrinho Joaquim Aguiar, que era cabo do exército. Inicia-se dessa forma,o fascínio pelas forças armadas e pelo espírito heróico. Não fez estudos regulares, mas aprendeu com Joaquim técnicas de engenharia, jornalismo e direito. Fazia treinamentos e exercicios regulares. Aprendeu latim, italiano, espanhol ,francês, inglês e alemão. Passava suas noites lendo livros e aprendendo sistemas administrativos e econômicos. Quando voltou para Campos , aos 20 anos, destacou-se como cirurgião, mas em seis meses preferiu voltar ao Rio e se alistou no exército. Casou-se com Gabriela dos Santos.
No mesmo ano de seu casamento , chegava ao Brasil a família Real, e Francisco foi convidado a ser guarda pessoal de dom João VI . Em pouco tempo ele percebe que seu ofício servia apenas para administrar intrigas palacianas entre Carlota Joaquina e Dom João VI.
Decepcionado, segue em busca de seu irmão João. Encontra-o em Copacabana, junto com José. Desde então os três passaram a viver juntos, isolados naquele imenso areal do rio.
João, José e Francisco decidem planejar sistemas econômicos para recuperar o dinheiro da família. Após longos cinco meses e dois quilos de papéis, os irmãos partem ao norte, para cultivar café, as margens do rio Paraíba do Sul, o maior polo cafeeiro. A região era famosa por possuir uma das terras mais férteis do Brasil. Começaram a longa viagem atravessando a Baia de Guanabara, indo por Niterói, para não passar pelo centro do Rio. Em Niterói, foram presos na fortaleza de Santa Cruz,mas logo foi percebido o engano: o procurado eram outros criminosos.
Ainda em Niterói, os irmãos ficaram fascinados com a pedra do índio e a incrível semelhança com o perfil indígena. Talvez por essa estadia,os irmãos iriam construir futuramente pequenos acordos com a cidade. p
Pelo resto da Guanabara, os irmãos Aguiar atravessaram Neves, Ponta da Pedra, Manilha, Itaboraí e Sambaetiba. Quando começaram a subir a serra passaram a sentir falta de cavalos próprios. Assim, compraram alguns cavalos bravos, porém muito bonito, que os acompanharam até a vila de Santo Antônio, em Cachoeiras de Macacu.
Subiram a serra do mar e avistaram o Rio Paraíba. Os Aguiar, passaram por Nova Friburgo e Cantagalo, chegando as margens do rio. Ali fizeram uma plantação, que deu certo, e rapidamente estava pronta para ser moída. João questionou o que seria do café sem os moedores! Sua frase logo foi incorporada a um sentido simbólico e João entrou na história como um pensador que privilegiava as consequências.
Deixaram o enorme terreno aos vento e continuaram o trajeto, até alcançar Itaocara. Essa cidade era bastante notável na região, e então eles por ali ficaram. Todavia, não encontravam um terreno de tamanho suficiente, até que ouviram falar de uma tal vila Santo Antônio, com cerca de 100 habitantes e com uma grande fertilidade. Mais uma vez, os irmãos Aguiar seguiram o curso do rio até encontrar uma pequena capela. Desceram dos cavalos e viram um padre de estatura média, de voz grossa e com cerca de 50 anos, orando junto com toda a população. Os habitantes locais logo perceberam a presença dos três "fidalgos" bem vestidos, montados em imponentes cavalos. O padre os acolheu de uma maneira bastante hospitaleira e os deixou dormir na capela. Antes do sol nascer, estavam João e Francisco passeando pela a vila e projetando as plantações. Os dois resolveram desenvolver os próprios cultivos.
João optou pela área onde hoje é o estádio Maranduba; José escolheu o terreno baldio, localizado na atual pracinha e Francisco preferiu plantar café em baixo do belo monte, onde está o mirante de Santo Antônio.
Os irmãos tiveram alguns desafios, dentre eles combater a resistência indígena, que contava com apoio do padre Antônio. Resolveram não resistir e oferecer terras boas. Desenvolveram um sistema comercial, que ligava vila de Santo Antônio até Itaocara para o Brasil. Ofereceram bons salários a mão de obra bastante escassa, e tentaram qualificá-la. Uniram as plantações sem causarem conflitos internos.
Apesar dos problemas ocorridos, João, José e Francisco conseguiram atingir patamares altíssimos, e assim passaram a desenvolver a pequena vila com construções e calçamento das ruas, e assim mudaram o nome da vila Santo Antônio para vila dos Três Irmãos E.R., em homenagem aos desbravadores irmãos Aguiar.
Diz uma lenda, que três índios eram unidos como se fossem um só corpo e uma só alma. Nunca se separavam e eram muito felizes. Uma certa noite ,quando pescavam e cantavam, as margens das águas do rio Paraíba, se surpreenderam com o virar de seu barco. Morreram todos afogados, e seus corpos jamais foi encontrados. Assim, segundo a lenda, três pedras iguais surgiram e nelas estão guardadas as almas dos três irmãos, que unidos inspiram o amor fraternal.
AUTORIA: Mário Garcia Aguiar